The Analytical Creativity

Estamos a assistir a uma mera procura de ferramentas digitais ou a uma Revolução Mental?

Satya4

No capítulo inicial do meu novo livro – “A Revolução no Marketing Mindset” – refiro que não foi suficiente apostar nestes últimos 20 anos num discurso público sobre “digital” (o primeiro programa PME Digital foi lançado em 2001) porque o nível de competências fundamentais em gestão na maioria das empresas portuguesas manteve-se modesto em relação à inovação digital de acordo com vários indicadores nacionais e internacionais, apesar dos programas de incentivo criados ao longo deste período:

  • PME Digital (2001);
  • Plano Tecnológico (2005);
  • Agenda Digital para a Europa (2010, revista em 2012);
  • Mercado Único Digital (2015);
  • Estratégia Nacional de Empreendedorismo (2016);
  • Estratégia para a Indústria 4.0″ (2017);
  • Iniciativa Nacional Competências Digitais e.2030 (2017);
  • Programa Comércio Digital (2019);
  • Programa Norte Digital (2019);

… sem falar da promoção dos Digital Innovations Hubs e a própria presença e influência da Web Summit em Lisboa desde 2016.

A esta lista junta-se agora o mais recente programa do governo sobre este tema: Portugal Digital, lançado no início de Março (ainda antes da crise do Covid-19) que se propõe capitalizar todos estes programas e estratégias existentes, entre outras medidas, através de 3 pilares: A capacitação e inclusão digital das pessoas; a transformação digital do tecido empresarial e a digitalização do Estado.

O tema da transformação digital (DX) tem sido “expurgado” até à última gota nestes últimos anos, tal como descreve José Crespo de Carvalho (Professor Catedrático no ISCTE-IUL) num artigo sobre a importância desta área para os desafios que o Covid-19 vieram trazer: “Falou-se tanto, quase ad nauseam, em transformação digital que, bom, chegou a hora de pormos muito do que era ainda prospect em prática. Parece que andámos a brincar com o futuro e o futuro disse: já cá estou!

De facto, parece ser verdade: Já se disse tudo (ou quase tudo) sobre DX mas afinal o que falta ainda fazer?

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Há claramente um problema de competências digitais sobre o qual muito se espera que o Portugal Digital venha finalmente resolver, sobretudo junto dos empresários, gestores e decisores de topo, porque nem sempre esta linha executiva considera ser o alvo das aprendizagens de natureza upskilling ou reskilling, mas os exemplos de boas práticas hands-on devem começar por aqui.

Mas há também, e nunca deixou de existir, um problema estrutural que se manteve ao nível das competências de gestão e liderança: Basicamente saber gerir um negócio.

Estas competências são o garante essencial da iniciativa empreendedora, porque asseguram o conhecimento, as técnicas e os instrumentos fundamentais na gestão de uma empresa perante a ideia, a sua estratégia de mercado e o seu modelo de negócio num contexto competitivo.

As empresas que não conseguem ter abertura para perceber a importância da inovação digital precisam de ser educadas num patamar mais elementar em termos de gestão estratégica para que compreendam, a partir desta base, o potencial de outras forças e fraquezas no seu mercado.

A este propósito, Francisco Ferreira Pinto, Partner da Bynd Venture Capital refere que a crise gerada pelo Covid-19 é, precisamente para as empresas: “um verdadeiro teste às suas capacidades de gestão e liderança“.

É este tipo de capacidades que permitem tomar a decisão de se investir no digital avaliando a importância deste fenómeno do ponto de vista estratégico e não apenas porque a concorrência também o faz.

As competências em gestão e liderança podem ser estudadas, aprendidas ou adquiridas pela experiência, influência, etc.. Não há uma fórmula mágica que garanta a melhor forma de gerir um negócio, mas existem fundamentais no ensino da gestão moderna que providenciam bases de conhecimento que são vitais para se construir uma mentalidade aberta para os vários desafios das economias e dos mercados e muito especificamente para as mudanças.

O mais relevante é a importância que cada empresário ou gestor atribui a esta visão e com ela desenvolver o mindset mais adequado para enfrentar a mudança.

A Revolução Mental a partir do fenómeno Digital

Agora que as empresas e os empresários, sobretudo nos sectores dos serviços, estão confinados ao isolamento social a trabalhar remotamente, é expectável que no período Pós-Covid19 esta experiência venha a estimular a procura e a intensificação de soluções DX.

É frustrante pensar-se que tudo irá voltar a funcionar em modo business-as-usual sem que tenha havido uma aprendizagem eficaz.

Mas a implementação de práticas DX não se tornam de imediato eficientes numa óptica plug and play e certamente muitas empresas e colaboradores nem tiveram tempo de estabelecer métodos pedagógicos na adopção da tecnologia a todo um contexto digital em termos de produção e relação.

Destaco 3 factores que são fundamentais na aprendizagem de competências para gerir o fenómeno do Digital:

1. Sensibilidade para a desmaterialização e automação

Há aqui claramente uma questão de mindset que leva à eliminação de elementos desnecessários nos processos (como o papel, por exemplo) introduzindo maior agilidade e fluidez nos diferentes circuitos de comunicação, análise e decisão.

A simples digitalização não representa em si uma transformação efectiva no modelo de negócio, mas é um driver muito importante na criação de novas mentalidades, porque ajuda a estabelecer práticas a partir das quais se consegue avançar no percurso transformativo.

Um mindset orientado para a desmaterialização é um precioso aliado da mudança…

2. Criação de conceitos nativos digitais

Trabalhar e dar formação remotamente exige que se desenvolvam e se implementem metodologias adequadas a todo um contexto digital de raiz e não apenas a simples adaptações de conteúdos ou plataformas (muito menos numa atitude copy & paste).

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Esta área será talvez a mais desafiante no Pós-Covid19 porque dela dependerá o sucesso na continuidade da produção e prática remota em regime perfeitamente normalizado, fora de qualquer restrição ou contingência.

3. Cultivar a excelência digital

Por último, mas não menos importante (pelo contrário) há todo um trabalho de construção mental (digital first business mindset) para que os 2 pontos anteriores tenham sucesso em larga escala nas empresas e nos empresários e que passa pela criação de uma cultura orientada para o digital como uma competência de gestão que envolva genuinamente as pessoas nas suas aprendizagens.

O Portugal Digital tem aqui um desafio gigantesco para fazer a diferença face aos outros programas e talvez o governo pudesse ter sido ainda mais ambicioso se tivesse criado um ministério especificamente para esta área em vez de seguir o modelo mais abrangente nas políticas europeias, colocando o digital na dependência da economia, mas alguns países já deram este passo: Ucrânia (Ministry of Digital Transformation) e Polónia (Ministry of Digital Affairs).

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O digital não é apenas uma ferramenta (seria muito redutor pensar-se desta forma) para fazer media ou marketing, e enquanto estiver a ser promovida neste patamar não se poderá exigir mais do que os instrumentos permitem dentro das suas limitações.

Um discurso sobre o “digital” só pode ter resultados mensuráveis se for fomentado desde a sua génese como uma nova cultura de gestão e não apenas como um incentivo ao uso da tecnologia…

#StaySafe

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